Notícias

Mâe acusada de matar própria filha relata injustiça em livro

Daniele conta em seu livro a experiência de ter vivido um inferno na sua vida, quando foi presa injustamente acusada de ter matado a propria filha de um ano e três meses.

15/05/2017

a época da acusação injusta, a dona de casa Daniele Toledo ficou conhecida no país como "o monstro da mamadeira

Há dez anos, Daniele Toledo passou por um verdadeiro inferno. Foi acusada injustamente de ter matado a própria filha, Victoria, de um ano e três meses. Ficou 37 dias encarcerada e foi espancada durante a passagem pela prisão, perdeu a visão e a audição do lado direito e teve a clavícula e o maxilar quebrados

Sua história está publicada em "Tristeza em Pó", da editora nVersos. Na obra, Daniele conta como enfrentou a trama na qual se viu envolvida

Aos 21 anos, viu sua filha ter três paradas cardíacas. Não houve tempo de se despedir. Foi logo acusada de ter assassinado a criança com overdose de cocaína e presa em flagrante. A suspeita surgiu após um pó branco - proveniente de um remédio - ser encontrado na boca da criança na noite em que ela morreu. Um exame inicial feito pelo Instituto de Criminalística -desmentido depois- apontou cocaína

A pequena Victória tinha uma doença que a deixava inconsciente por várias horas. Tomava de quatro a cinco remédios diariamente, inclusive um para evitar convulsões. Seus últimos quatro meses de vida de foram marcados por várias idas ao hospital. Em uma das internações da filha, Daniele foi estuprada por um estudante de medicina

Nas páginas de "Tristeza em Pó, Daniele conta detalhes de sua vida, sua juventude, sua experiência com drogas na adolescência e como engravidou de Victória e do primeiro filho, André, 13

Leia abaixo um trecho do livro

0

Taubaté não tem periferia. Tem antes e depois da linha do trem. Eu morava depois

Nossa casa era simples. Tinha quarto, sala, cozinha e banheiro. Dormia todo mundo no mesmo cômodo: meus pais, meus dois irmãos mais novos e eu. Quando eles foram crescendo, meus pais compraram uma caminha de armar e desarmar pra eles

Na nossa rua tinha uma praça pequena, com um parquinho, tanque de areia. Tinha bastante criança ali. Eu era zoeira, moleca - rolava na terra, andava descalça. Bati a cabeça três vezes, quebrei o braço. Nunca cumpria o horário pra voltar da rua. No fim do dia, minha mãe aparecia no portão chamando

Daniele! Tá na hora de entrar

Eu não gostava de entrar. Dentro de casa eu brigava muito com meus irmãos. Quase sempre por causa da televisão. Eles queriam ver Power Rangers, e eu, Ursinhos Carinhosos

Também brincava bastante de boneca. Eu gostava de uma Barbie original, mas com a cabeça quebrada, que ganhei. Pegava o carrinho dos meus irmãos e inventava que era a limusine dela. Meu pai era montador de móveis e ganhava miniaturas de mobília que dava pra gente, e com elas eu fazia a casa. Uma colega da minha mãe costurava pra fora e fazia as roupinhas das minhas bonecas

Não tenho do que reclamar da minha infância

1

Aprendi a fumar e a usar droga na escola

Minha mãe nunca desconfiou. Eu não tinha faltas nem notas baixas. Com treze anos, comecei a trabalhar como balconista na Doceira do Vale, que fica no centro da cidade e é muito tradicional na região. Estudava de manhã e, às duas e meia, entrava no serviço. Às dez da noite, a loja fechava. Eu ia pra casa, tomava banho, me arrumava e ia pra balada

À noite, gostava muito de usar roupa preta: colocava uma calça justa e uma blusinha também dessa cor. Depois passava lápis preto pra realçar os meus olhos verdes e um batom cor-de-rosa bem clarinho. Estava pronta e saía. Naquela época, eu fazia luzes no meu cabelo, castanho-claro e liso, e usava um corte repicado, na altura do ombro. Gostava muito de ir numa casa de shows chamada Estrutura, que tocava rock brasileiro - adoro o Charlie Brown Jr. e o Rappa. Com 1,64 metro e 55 quilos, tinha um corpo que chamava bastante a atenção. Eu me sentia muito bonita

Com o salário que ganhava, pagava a balada, comprava roupa nova e droga. No começo, cheirar era mais só no fim de semana. Depois, era também durante a semana. Primeiro de manhã, pra aguentar ficar acordada na escola. Depois, era à tarde, pra aguentar o trabalho

Cheguei a me viciar um pouquinho, sim. Fui fazendo dívida. Até que percebi que não comprava mais nada pra mim, só pó. Vi que não ia chegar aonde eu pretendia. Eu nunca repeti de ano. Gostava de desenhar e queria ir pra faculdade de Arquitetura. Com dezesseis anos, resolvi parar de usar e fui atrás de ajuda

Em março de 2001, comecei a participar das reuniões dos Narcóticos Anônimos. Ninguém sabia. Parei com tudo. Em janeiro de 2002, quando fiz dezessete anos, já não tava mais usando. Em julho, fiquei grávida do André, meu primeiro filho. Eu estava no segundo colegial e muito arrependida de ter engravidado. No comecinho, até pensei em fazer aborto. Só que nunca tomei uma atitude. Levei em frente. E, mesmo com a barriga, continuei participando das reuniões do NA

Eu não via o Fabiano como pai do meu filho. A gente tinha começado a namorar na escola, quando eu tinha catorze anos. Não, ele não foi meu primeiro "namorado". Ele era moreno, alto, um pouco desengonçado - eu achava ele engraçado e divertido. Ele só usava droga esporadicamente, gostava mesmo era de beber cerveja, muita cerveja. Às vezes, a gente ia junto aos shows no Estrutura; às vezes, um dava um perdido no outro. Como a gente morava em bairros distantes, certa hora da noite eu falava pra ele que ia dormir, daí ele falava pra mim que ia embora pra casa; no fim, ninguém ia dormir nem ia pra casa nada. A gente ia cada um pra uma balada. Até que, grávida de dois meses do André, descobri que ele tinha outra pessoa. E que essa outra mulher também tava grávida dele. Terminei nosso relacionamento. No final, ele teve os dois meninos, e aí tem sempre uma época do ano em que o meu filho e o irmão ficam com a mesma idade

Apesar de todo esse rebuliço, foi tudo tranquilo na gravidez do André. Minha família me apoiou e eu não tive nenhum problema de saúde. Nada. Me sentia bem, gostava muito de andar, continuei estudando e frequentando o grupo dos Narcóticos Anônimos. Foi lá que eu conheci o pai da Victória

2

O Renan é um cara bem aparentado. De olhar pra ele, não dá pra notar que é usuário de droga - só mesmo pelo jeito de falar e de agir. Tem 1,92 metro, é gordo e anda sempre bem vestido. É um noia chique: nasceu numa família tradicional (falida, mas tradicional) de Tremembé, que é a cidade vizinha. Eles fazem questão de comprar tênis caro, camisa cara, tudo pra ele. Mesmo sabendo que depois ele vai trocar tudo por pedra

Apaixonada, daquelas de dizer faço tudo por ele, eu nunca fui. No começo, durante a gravidez do André, a gente ficou muito amigo e só. Depois que o André nasceu, em março de 2003, a família do Renan pegou um carinho muito grande pelo meu filho. Acabou se formando um laço com a avó e com os pais dele. Aí, quando o André tava com uns três meses, resolvi dar uma chance pra ele

A gente foi ficando, ficando, eu fui levando. O pai do André não tava nem aí e eu procurava uma família pro meu filho. Acabei engravidando de novo, no fim de 2004, quando o André tava com quase dois anos

Logo que descobri a gravidez, o Renan recaiu. Ele tinha várias recaídas. Eu tentava ajudar, mas nada dele querer. Foi aí que eu disse não quero mais. Terminei com ele. O problema é que ele era uma pessoa extremamente fora do ar. Se fosse uma pessoa estabilizada, se tivesse emprego fixo... só que não. Foi um erro meu

O Renan queria voltar, eu não queria. Ele morria de medo que eu voltasse com o pai do André. Nessa época, eu trabalhava num prontoatendimento lá em Tremembé, que tem uma parte rural grande, mas a cidadezinha mesmo é bem pequena e todo mundo se encontra, mesmo sem querer. Eu já estava com uma barriguinha e, pra ir na rodoviária, que era longe, pegava ônibus na frente da casa da mãe do Renan, pra não cansar

Dava muita briga quando ele me via. Numa dessas, ele me agrediu feio. O tio dele me pediu pra não fazer o boletim de ocorrência nem dar queixa na delegacia por causa da mãe dele. Com o Renan eu tinha problema, mas com a família dele não tinha nenhum. Aí não fiz

Com cinco meses da gravidez da Victória, voltei a namorar o pai do André

2017 © Editora nVersos - Todos os direitos reservados