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Mais importante que saber operar é saber quando não operar

BBC entrevista o medico neurocirurgião Henry Marsh sobre o seu livro best-seller  "Sem Causar mal ".

 

09/05/2017

'Quanto mais se pratica, maior é o cemitério'

No "cemitério particular" de Henry Marsh há muitas pessoas. Ali vive, por exemplo, uma menina ucraniana que, embora tenha sobrevivido a uma complicada cirurgia no cérebro, saiu da sala de operação em más condições e com tão pouca chance de recuperação que Marsh chegou a questionar se era hora de parar de trabalhar.

Erros médicos

De acordo com Marsh, a maioria dos erros médicos ocorre fora da sala de cirurgia. "Muitas vezes as pessoas têm a impressão de que erros estão relacionados à estabilidade do pulso do cirurgião, o que é uma bobagem", diz categórico. "As coisas não caem da sua mão nem você corta o que não deveria... isso acontece, mas é muito, muito raro", complementa.

Adrenalina

O livro de Marsh também traz dados curiosos sobre a textura do cérebro, que se parece uma massa branca gelatinosa, sobre o melhor amigo de um neurocirurgião - não é o bisturi, mas um aspirador - e explica que muitas cirurgias cerebrais são feitas com anestesia local, com o paciente acordado enquanto tem a cabeça vasculhada. Mesmo com 35 anos de experiência no currículo, Marsh admite que ainda fica nervoso antes de uma operação, especialmente se algo deu errado na última cirurgia similar à que está prestes a fazer.

Verdade aterrorizante

Questionado sobre quanta informação realmente pode ser dada a um paciente ou aos familiares quando algo é realmente grave, Marsh responde que não pode dizer toda a verdade. "É muito difícil. A verdade é aterrorizante", afirma. Ele se defende dizendo que não há certezas absolutas na medicina e que tudo o que os médicos fazem é baseado em probabilidades.

Arrogância

Marsh responde com um robusto sim quando perguntado se já teve que dizer a algum paciente que cometeu um erro. "Eu digo às pessoas para me denunciarem quando acho que cometi um erro grave. Eu fiz isso três vezes", ele admite. Uma dessas situações está no livro. "Não é fácil fazer isso", diz ele.

Por lei, no Reino Unido, hospitais têm que respeitar "dever de sinceridade", no qual é necessário informar e pedir desculpas aos doentes se houve erros que causaram danos significativos. Mas, em países Reino Unido e Estados Unidos, médicos não são responsabilizados financeiramente se houver denúnica. Mas, de acordo com Marsh, eles têm medo sim de admitir erros. É uma questão de vergonha.

"Se você entrar na sala de operação cheio de dúvidas, você não pode operar", diz ele. Talvez por isso, de acordo com Marsh, tradicionalmente, cirurgiões normalmente são arrogantes e têm um "ego grande". "Em parte, é um mecanismo de auto-defesa, para enfrentar a incerteza e poder fazer um trabalho perigoso. Mas é o paciente que está em risco, não você", observa.

 

 

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