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Novo Choque de Tropicalismo está no cinema!

Newton Cannito, cineasta, roteirista e ex-titular da Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura, no final do go­verno Lula, é um provocador.

09/12/2013

Por Maria do Rosário Caetano

de São Paulo

 

Newton Cannito, cineasta, roteirista e ex-titular da Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura, no final do go­verno Lula, é um provocador.

Doutor em Cinema, pela USP e, atual­mente, integrado ao núcleo de teledra­maturgia da Rede Globo, ele não se can­sa de provocar com seus filmes e livros. Tanto que acaba de lançar, de uma só vez, pela Editora nVersos, os livros-pro­vocação Choque de Tropicalismo – Ci­nema e TV, com prefácio de Carlos Die­gues, Manual do Bullying e Outras Sá­tiras de Amor Pós-Ativista (com ilustra­ções de Alan Sieber e Cynthia Bonacossa) e Deus é Humor. Estes livros somam-se a cinco outros, sendo um manual de ro­teiros, fruto de parceria com Leandro Sa­raiva (prefácio de Fernando Meirelles) e A Televisão na Era Digital.

Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine (Agência Nacional de Cinema), que formou com Cannito, Leandro Sarai­va e Alfredo Manevy o quarteto que edi­tou, na USP, a revista Sinopse, constata – em texto escrito para Choque de Tropi­calismo – que o autor sempre foi um “po­lemista” militante. “E dos melhores, pois nunca hesitou em polemizar sobre o que ele próprio faz e sobre o que os outros ao seu redor estão realizando, sem se im­portar em ser contraditado”.

Rangel entende que “isto deveria ser uma obviedade para uma atividade cria­tiva, como o audiovisual, mas não o é”. Ao contrário. “Instalou-se” – lamenta – “um certo ‘bom mocismo’ que interdita o debate estético e, com ele, o debate subs­tantivo sobre os rumos do cinema audio­visual brasileiro”.

Se depender da vontade de Newton Cannito, seus três novos livros provoca­rão polêmica similar à que provocou seu filme mais famoso – Jesus no Mundo Ma­ravilha (2007) – realizado para o progra­ma DocTV América Latina, mantido, du­rante o governo Lula, pelo MinC em par­ceria com países latino-americanos.

Jesus no Mundo Maravilha mostra a vida de três militares exonerados da polí­cia, que trabalham num parque de diver­sões. Além deles, a trama inclui um pa­lhaço que sonha com a fama e uma fa­mília que clama por justiça, já que teve um filho assassinado por policiais. O fil­me, que é tema das reflexões do próprio Cannito em Choque de Tropicalismo, re­cebeu uma saraivada de críticas.

Primeiro, o professor da USP Jean­-Claude Bernardet registrou em seu blog(www.jcbernardet.blog.uol.com.brque Jesus no Mundo Maravilha é um filme que opta por “uma estética do escândalo”. E acrescentou: “É a estéti­ca da desestabilização que te obriga a re­ver teus sistemas de valor ou os valores do teu sistema. É assim que se faz docu­mentário? Vale qualquer coisa? Pode se entrevistar assim pessoas sofridas? Po­de se tratar assuntos graves e urgentes em tom de palhaçada? Não, não pode”. Bernardet acha que pode e conclui que Jesus no Mundo Maravilha é um “filme subversivo”.

O cineasta e professor da Universida­de Federal Fluminense Cezar Migliorim contra-atacou na revista Devir: “Cannito, seu filme é monstruoso, com as seduções que podem ter os monstros”. E prosse­guiu, impiedoso, em exegese de seis den­sas páginas.

No encontro anual da Socine (Socie­dade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) duas comunicações tive­ram Jesus no Mundo Maravilha como tema de novas reflexões. No espaço di­gital, novos e pesados questionamentos sobre o filme se tornaram públicos: os ensaístas César Guimarães (mestre em Comunicação Social pela UFMG) e Cris­tiane Lima assinaram o artigo Crítica da Montagem Cínica.

Neste exato momento em que New­ton Cannito propõe um choque de tropi­calismo no audiovisual brasileiro, o ar­tista plástico e ensaísta Nuno Ramos se alinha, em certa medida, com Roberto Schwarz, professor da USP, e com o gru­po teatral Cia Latão, ao suspeitar que “o Tropicalismo tenha naturalizado nossa indústria cultural (cada vez menos de­mocrática) até um ponto sem retorno”.

Brasil de Fato conversou com Newton Cannito sobre esta “suspeita” de Nuno Ramos. E também sobre seus três novos livros e os rumos tomados pelo ci­nema brasileiro contemporâneo.

Brasil de Fato – Além de Choque de Tropicalismo – Cinema e TV, você está lançando Manual do Bullying Outras Sátiras do Humor Pós-Ativista e Deus é Humor. Seus trabalhos mais importantes como roteirista estão no campo do cinema (e TV) de ação ou crítica social. Vide suas parcerias com Sérgio Bianchi (Quanto Vale ou É Por Quilo?) e Jéferson De (Bróder). Agora, além de cineasta e roteirista, você vem se definindo como humorista. Que contribuição Manual do Bullying traz para o audiovisual brasileiro?

Newton Cannito – Bullying é um li­vro de humor. Humor político. Com sá­tiras num estilo South Park. É o que mais gosto na vida. Sátiras. Acho South Park a maior obra da arte mundial contemporâ­nea. Fiz sátiras nessa linha. Acho que po­de inspirar humor adulto inteligente.

Você propõe um “choque de tropicalismo” no cinema brasileiro. Ou seja, quer que a produção nacional passe pelo que passou a MPB no final dos anos de 1960. Que nossa produção se abra ao mundo, mergulhe no pop e não fique apegada a temas nacionais e engajamento político. É isso?

Quase isso. Proponho um mergulho no pop com temas nacionais e engajamento político. Qual a dicotomia entre ser pop e ter temas nacionais? O Brasil é megapop. Qual a dicotomia entre ser pop e temas políticos? O pop sempre foi político. Des­de sempre. O que defendo é apenas que o cinema brasileiro se libere de suas pró­prias definições do que é “nacional” e ex­panda o conceito de nacional. Tal como Oswald (de Andrade) propunha. Tal co­mo o Tropicalismo fez na música. E co­mo o cinema ainda não fez. Mas esta co­meçando a fazer.

Nuno Ramos, em ensaio publicado na Folha de S. Paulo (28-05-14), disse suspeitar que “o Tropicalismo tenha naturalizado nossa indústria cultural até um ponto sem retorno, e que o ciclo de conquistas democráticas provenientes dessa operação tenha se encerrado há décadas”. Você concorda com esta avaliação tão desalentadora das consequências do Tropicalismo na nossa vida cultural? Afinal, ela acontece no momento em que você defende um “choque de tropicalismo”.

Concordo que os valores democráticos e inovadores do Tropicalismo possam ser usados para justificar a violência da in­dústria cultural. E realmente são, às ve­zes, usados para isso. Mas, quando is­so acontece, não é mais Tropicalismo. O próprio Nuno reconhece que o Tropi­calismo gerou um ciclo democrático. Se parou não é culpa do conceito de Tro­picalismo. É culpa da má aplicação des­se conceito e da famosa estratégia do ca­pital de se apoderar de tudo. E é claro, a culpa é de nós, os artistas, que deixa­mos isso acontecer. Um exemplo: Tropi­calismo não pode ser homenageado. Tro­picalista homenageado vira estátua, não é Tropicalismo. Não tem sentido ter um clássico Tropicalista. Não existe isso. Por outro lado, se isolar da indústria cultural continua não sendo a solução. O fracasso do cinema independente brasileiro, que cria celebridades existentes apenas em microfestivais sem nenhuma repercus­são pública, mostra isso. O isolamento da indústria cultural continua não sendo a solução. Por tudo isso, acho que che­gou a hora de recuperar os verdadeiros valores do Tropicalismo. E conseguir fa­zer um cinema e uma TV que realmente “antropofagizem” a indústria cultural e a cultura popular, como foi o primeiro mo­mento do Tropicalismo.

Por que, para a sua geração, o cinema de temática social e política é “o grande culpado” por nossa dificuldade de diálogo com o público? Mas não foi ele que deu projeção e credibilidade (inclusive internacional) à nossa produção na época do Cinema Novo?

Não acho nada disso. No meu livro, analiso os motivos do sucesso de Tropa de Elite e o principal – na minha humilde opinião – é a capacidade de equacionar a questão social e cultural da violência no Rio de Janeiro. Glauber mesmo é um ca­se de sucesso comercial. Basta ver que até hoje, 50 anos depois, tem DVDs ven­didos. Um sucesso comercial com prazo mais longo, um outro modelo de negó­cios, mas sucesso. Acho que falar de polí­tica e representar a sociedade atraem pú­blico. Basta ver que a TV brasileira con­seguiu público com autores do CPC (Cen­tro Popular de Cultura, da UNE). Sem­pre que conseguimos isso, conquistamos o público.

Você quer que o cinema brasileiro deixe de cultivar prioritariamente o drama político-social para adultos e passe a produzir filmes de todos os gêneros. Na comédia, sempre encontramos o trilho certo para dialogar com o grande público. Mas há gêneros em que nosso desempenho, além de mínimo, sempre foi pífio. O distribuidor Bruno Wainer destaca, por exemplo, nossa “inaptidão total para a ficção científica”.

Podemos até ter uma inaptidão. Mas temos que superá-la. No livro, tem um artigo no qual listo os motivos pelos quais não fazemos fantasia. Tem des­de trava criativa até modelo de produ­ção. O cinema brasileiro virou um gêne­ro. Se quisermos ter mais público para o cinema brasileiro temos que deixar de ser apenas um gênero e atacar em todos. O mesmo com a TV. Nunca mais a nove­la terá toda a audiência que teve. Acabou o projeto de agradar a todos. Agora tem que saber atender a todos os segmentos, todos os gêneros.

O cinema brasileiro parece ter familiaridade histórica com a paródia. Vide chanchadas famosas como Matar ou Correr, Nem Sansão, Nem Dalila, O Homem do Sputnik, Bacalhau... Só que no momento presente, as paródias brasileiras revelam pobreza criativa ímpar. Vide Totalmente Inocentes Copa de Elite. Perdemos a mão?

Eu gostei do Copa de Elite. Mas isso é gosto. Não gostei do Totalmente Inocen­tes, mas isso é gosto. Não sei como foram de público, mas torço por todo cineas­ta que ataca em um gênero subexplora­do no Brasil e torço para que isso bombe.

Copa de Elite vendeu 620 mil ingressos e Totalmente Inocentes, 545 mil, números apenas medianos.

Temos que voltar a criar com gêneros e a criar novos gêneros. O maior sucesso do cinema brasileiro antes de Tropa de Elite era Dona Flor e Seus Dois Maridos. Um filme que conciliou dois gêneros de grande sucesso em nosso cinema: a co­média de pornochanchada e o espírita. Dona Flor é uma pornochanchada espí­rita. Nada maispop, nada mais nacional. Meu próximo roteiro de longa-metragem atacou em nova mistura. Pensei de for­ma bem simples. Quais os dois gêneros que bombam no Brasil hoje? Policial e comédia. O que necessitamos fazer para alcançar sucesso? Adivinha aí... Policial e comédia! Falta o quê? Comédia policial. Estou estudando a história do gênero co­média policial para abrasileirá-lo.

Quando um gênero faz sucesso no Brasil, a maioria segue o filão. Foi assim com o chamado favela movie. Agora, muitos querem fazer comédia. Como diversificar a produção brasileira?

O mercado é naturalmente conserva­dor. Se der o poder ao distribuidor ele vai querer se repetir. É normal. Em qualquer atividade o poder público atua no incen­tivo à inovação. Não ao experimentalis­mo. A inovação de valor é um conceito que busca inovação em novos públicos. Acredito que o poder público brasileiro deveria cumprir o papel público de prio­rizar obras que procurem diálogos com públicos ainda não conquistados. Como, por exemplo, o público gay. O público cowboy. E por aí vai. O que já faz sucesso o mercado mesmo vai produzindo, pois já dá dinheiro. Tem que apostar no que pode fazer sucesso, mas ainda não faz.

A burocracia, na sua avaliação, está dizimando as forças criativas dos realizadores brasileiros. Por que ela ganhou tamanho vulto? Se as regras forem arrefecidas, os Tribunais de Contas e a imprensa cairão em cima. A grande mídia brasileira tem, hoje, como alimento e razão de ser a denúncia da corrupção em todos os níveis (da compra de uma tapioca a gastos de estatais ou do governo federal). Como sair deste círculo vicioso? Por que, em tal contexto, o cinema seria regido por regras menos burocratizadas?

Dedico um capítulo inteiro a estas questões. Temos que parar de ser ONG. Parar de avaliar como se o filme fosse uma ONG com responsabilidade social. Como parar com isso? É simples. Bas­ta avaliar resultados. Nós queremos ser “política social” ou “política industrial”? Política social somos ONG e sua buro­cracia. Política industrial muda. Mas aí avalia resultados. Investe. Se tiver retor­no, ótimo. Se não tiver, deixa de investir. Simples assim. Se os cineastas não que­rem mesmo burocracia têm que aceitar que será avaliado o resultado. Mas isso não significa apenas fazer filmes comer­ciais como os comerciais de hoje. Signi­fica buscar o público de filmes que hoje não são considerados comerciais. Tem que diversificar os públicos.

No campo da realização, você é um diretor, paradoxalmente, voltado para temas sociais e políticos, como a violência urbana. Vide seu filme mais polêmico Jesus no Mundo Maravilha ou Violência S. A. Para a TV, você escreveu 9 MM- São Paulo. Também ligado ao mundo da violência. O humor que você introduziu nestes projetos, em especial em Jesus no Mundo Maravilha foi recebido a pedradas. Seu senso de humor é dissonante?

Dissonante do chatérrimo mercado de debates sobre documentário brasilei­ro que ficou megapoliticamente corre­to e careta. Se afastou do debate estéti­co e da arte e virou gente metida a bon­zinho. O cara devia ser pedagogo, mas acha que é cineasta. Meu senso de hu­mor também destoa um pouco do humor jovem da maioria da galera. Pois aí é des­politizado. Falta humor político no Bra­sil. A esquerda (lamento, mas o fato é que sou meio intelectual e meio de esquerda, como diz o maravilhoso Antonio Prata) ficou sem humor. Já viu isso? Só quem tem humor e pensamento livre é a direi­ta. Errado (na minha humilde opinião), mas mais livre. Esquerda virou ONG me­lodramática ou petista fanático. Está me­lhorando um pouco, surgiram o Gregório Duvivier, o Marcelo Adnet, o Allan Sie­ber, o Antonio Prata e uma coisa ou outra que curto mais. Mas temos que reforçar o humor político inteligente. Sempre te­ve público para isso, vide Vianinha, Dias Gomes, Henfil e todo Pasquim. Temos que voltar a isso.

Você não tem nenhum preconceito contra a TV. Foi de projetos alternativos (como o DocTV, na rede pública), à Rede Globo (como co-roteirista de telenovelas), passando pela TV a cabo (Fox, com 9 MM). Por que o diálogo do cinema brasileiro com a televisão segue tão complicado e improdutivo?

É superprodutivo e teve muitos suces­sos. Apenas num perfil de público. Mas melhor que nada. Agora podemos diver­sificar esse diálogo para outros públicos. É um diálogo fundamental.

Pode uma cinematografia formar público, se ela ignora o cinema infantojuvenil? Afinal, de cada cem novos filmes brasileiros produzidos a cada ano, só três ou quatro são destinados a estas faixas etárias?

Tem toda razão. Não pode. Na verda­de, todo o cinema americano é infanto­juvenil. Me diz um filme que não seja in­fantojuvenil? Toda Marvel é. Toda Pixar. O cinema virou lúdico e virou espetácu­lo. Isso no mundo todo. Os filmes adultos migraram para os seriados de TV. Aqui vai se repetir isso. Quer fazer filme adul­to? Faça uma série de TV.

Fonte: Fator Brasil
Link: http://www.brasildefato.com.br/node/28987 

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